quarta-feira, 19 agosto , 2026

Quando fui anfitriã da Poesia

No último final de semana, o Museu Ferroviário de Tubarão, em Santa Catarina, foi palco de um evento muito especial. Especial para a cidade, para a literatura, para a cultura e, de maneira muito particular, para mim. 

Mas, antes de continuar esta crônica, permita-me fazer uma pergunta: 

Você sabe o que é cordel? 

Começo com essa pergunta porque ela tem sido recorrente em minha vida nos últimos dois anos. E, talvez, porque responder a ela seja também contar um pouco da minha própria história com esse gênero literário que sempre despertou em mim uma profunda paixão. 

Em 2023, iniciei meus estudos sobre a literatura de cordel. Era um sonho antigo, guardado no coração, mas que finalmente começava a ganhar forma entre cadernos, versos, rimas e métricas. Durante dez meses, mergulhei nesse universo tão rico, popular e, ao mesmo tempo, profundamente sofisticado. 

Mas não foi fácil. 

A metrificação parecia, muitas vezes, um caminho cheio de obstáculos. As rimas exigiam paciência. A escansão desafiava minha compreensão. E, talvez mais difícil do que tudo isso, havia a minha própria falta de confiança. 

Em determinado momento, devolvi meu caderno à gaveta e, junto com ele, tentei guardar também o sonho de ser cordelista. Desisti. Ou, pelo menos, pensei que tivesse desistido. 

Porque os sonhos verdadeiros têm uma maneira curiosa de permanecer vivos. Às vezes, eles não desaparecem; apenas silenciam. Ficam quietos, esperando o tempo certo para voltar a nos chamar. 

E foi assim comigo. 

Um ano depois, retomei meus estudos e concluí a formação inicial oferecida pela Academia Catarinense de Cordel, instituição que, desde sua instalação em território catarinense, já formou mais de duzentos alunos. 

Tudo nasceu de um sonho audacioso da cordelista e poetisa Salomé Pires. Um sonho que atravessou caminhos e distâncias. Ela foi ao Nordeste, estudou, aprofundou seus conhecimentos, destacou-se e, movida por sua paixão pela literatura e pela cultura popular, trouxe para o Sul do Brasil a força, a beleza e o encantamento do cordel. 

E foi justamente na celebração do terceiro aniversário da Academia Catarinense de Cordel que vivi um dos momentos mais marcantes dessa minha caminhada. 

A comemoração, tradicionalmente itinerante, chegou à nossa cidade. Tubarão recebeu grandes nomes do cordel catarinense e se transformou, por algumas horas, em território de poesia, cultura, memória e emoção. 

A programação encantou os convidados. Tivemos a belíssima exposição “Cordel Encantado”, apresentações teatrais e musicais, lançamentos de obras, declamações, premiações e a posse de novos acadêmicos — um momento especialmente emocionante para aqueles que deram mais um passo importante em sua trajetória literária. 

E, em meio a tudo isso, eu tive a honra de ser convidada para ser a anfitriã do evento. 

Confesso que, no início, talvez eu não tenha dimensionado completamente a responsabilidade que essa missão representava. Foi ao longo da organização, entre preparativos, expectativas e desafios, que percebi a grandeza daquele compromisso. 

Ser anfitriã foi muito mais do que receber convidados. Foi abrir as portas da minha cidade para a poesia. Foi ajudar a acolher pessoas que carregam nas palavras uma parte importante da nossa cultura. 

Foi participar, ainda que de forma pequena, de um momento que certamente permanecerá na memória de todos nós. E, por isso, minha gratidão é imensa. 

Recebi meu certificado de formação do curso Escritores do Belo, mas posso dizer, sem medo de exagerar, que o maior certificado que levei para casa não coube em uma moldura.  

Foi o aprendizado. Foi a convivência.Foi a emoção. Foi a certeza de que, quando nos permitimos viver aquilo que amamos, sempre saímos transformados. 

Também fui profundamente honrada pela presença dos meus queridos confrades e confreiras da ACATUL – Academia Tubaronense de Letras –, bem como de representantes de outras academias da região e das queridas escritoras da AJEB – Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – também estiveram presentes. 

De maneira muito especial, agradeço à querida jornalista Renata Dal-Bó, vice-presidente da AJEB Nacional, que não apenas prestigiou o evento, mas manteve-se ao meu lado na despedida dos convidados. 

E não posso deixar de agradecer aos amigos e familiares que estiveram presentes e que, de alguma maneira, ajudaram-me a sustentar o peso — e também a beleza — daquela responsabilidade. 

Tudo transcorria entre encantamento e poesia. Mas houve um momento em que a emoção tomou conta do Museu Ferroviário de uma maneira ainda mais profunda. 

Foi o momento das homenagens. 

A Academia Catarinense de Cordel tem a tradição de homenagear, na cidade que recebe sua comemoração, personalidades que contribuíram de maneira significativa para a história, a educação, a cultura e o desenvolvimento daquela comunidade. 

Para Tubarão, dois nomes foram escolhidos.Duas histórias. Duas trajetórias. Dois homens que, cada um à sua maneira, ajudaram a escrever capítulos importantes da nossa cidade e da nossa região. 

O médico anestesista, ilustre ferroviário e acadêmico Dr. José Warmuth Teixeira e o professor Pedro Antônio Corrêa, carinhosamente conhecido como o Senhor das Artes, receberam a honraria. 

A escolha de homenageá-los em vida tornou aquele momento ainda mais significativo. Porque existem pessoas que não deveriam ser lembradas apenas quando já não podem ouvir os aplausos. 

Há trajetórias que merecem reconhecimento enquanto seus protagonistas ainda podem sentir o carinho, a admiração e a gratidão daqueles que foram tocados por sua existência e por seu trabalho. 

E foi exatamente isso que aconteceu naquele dia. 

Ao ouvirmos suas histórias transformadas em versos, percebemos que o cordel tem esse poder extraordinário: ele preserva a memória, eterniza pessoas, conta histórias e transforma biografias em poesia. 

O momento da leitura dos cordéis, da entrega dos folhetos e das falas dos homenageados coroou o evento com uma emoção difícil de descrever. 

Não eram apenas sextilhas. Eram vidas inteiras condensadas em versos.Eram memórias. Eram contribuições. 

Eram histórias que pertencem não apenas a seus protagonistas, mas também à nossa cidade. 

A poetisa e presidente da Academia Catarinense de Cordel, Salomé Pires, foi responsável por transformar essas trajetórias em folhetos de cordel entregues aos convidados. 

Sobre o nobre médico, ferroviário e acadêmico Dr. José Warmuth Teixeira, uma das sextilhas declamadas dizia: 

Registrou a Ferrovia
Teresa Cristina em ação,
Mostrou trilhos e trabalho,
E toda transformação,
Apontou fatos marcantes
Do progresso em construção. 

 

Em poucos versos, ali estava uma parte da história de um homem que ajudou a preservar a memória ferroviária e a registrar um patrimônio que faz parte da identidade de nossa região. 

E, quando chegou o momento de homenagear o professor Pedro Antônio Corrêa, o Senhor das Artes, mais uma vez a poesia encontrou a história: 

Ao chegar em Tubarão,
Continuou seu destino,
Nas letras viu nova luz,
Fez então delas seu hino,
Registrou conhecimento
Profundo, etéreo, divino. 

Ouvir aqueles versos foi compreender que algumas pessoas deixam marcas que ultrapassam o tempo. 

Marcas na educação. Marcas na cultura. Marcas nas artes. 

Marcas na memória de todos aqueles que tiveram o privilégio de aprender, conviver e caminhar ao lado delas. E foi ali, naquele espaço tão carregado de história, entre antigos trilhos, livros, folhetos, poetas e aplausos, que eu percebi, mais uma vez, por que amo tanto o cordel. 

Porque o cordel é poesia, mas é também memória. É literatura, mas também é história. É rima, métrica e ritmo, mas é também sentimento. 

É uma forma de contar o mundo e, ao mesmo tempo, de não permitir que as histórias do mundo sejam esquecidas. Vivi, através do cordel, um dia memorável. 

E quero continuar. 

Quero seguir com meus cadernos riscados por escansões, métricas, tentativas e rimas. Quero continuar errando, aprendendo, recomeçando e, principalmente, acreditando que aquele sonho que um dia guardei em uma gaveta ainda tem muitos versos para escrever. Quero escrever um cordel para a Museóloga Silvana Silva de Souza que foi a grande responsável por tudo isto acontecer. 

Quero levar a poesia para as crianças, especialmente para que a literatura de cordel seja cada vez mais conhecida, amada e apreciada também em nosso estado. 

A literatura de cordel, reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, merece continuar atravessando fronteiras, gerações e territórios. 

Que ela se espalhe pelo nosso chão. Que encontre espaço nas escolas, nas bibliotecas, nos museus e, principalmente, nos corações. 

E que, assim como aconteceu comigo, ela possa despertar sonhos que talvez estejam adormecidos em alguma gaveta. 

E, se o cordel me ensinou alguma coisa, foi que nenhuma história precisa terminar no momento em que pensamos em desistir. 

Às vezes, basta abrir novamente o caderno. E começar outro verso. 

Nos vemos nas próximas linhas! 

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